Vai ser neste domingo a caminhada de protesto contra o caos aéreo.
Abaixo, o artigo escrito por Cecília Giannetti, intitulado “Não existimos”, publicado na Folha de São Paulo de hoje. Na minha opinião, é a coisa mais lúcida que li sobre o assunto, até agora.
LIGO O Google Earth para me certificar se o Brasil e- xiste. Procuro o país na bola azul que, clique vai, clique vem, subdivide-se toda em terras, águas, nações etc., até chegar numa quitanda na ilha do Governador, estabelecimento gerenciado há uns 200 anos pela mesma portuguesa, a dona Odete.
Virtualmente, portanto, há Brasil. E dona Odete, ao menos na ilusão criada pelo Google Earth, ainda anota numa caderneta o que devem os que não pagam na bucha.
Muito do que acontece neste país me faz duvidar de que estejamos no mapa. Os gabinetes oficiais devem estar vazios, os corredores dos palácios do governo, no escuro.
Creio que sequer haja uma lâmpada que pudesse ser acesa, caso restasse em alguma sala um fun- cionário exercendo o ofício de varrer o grotesco para debaixo do tapete.
Não existimos. Somos invisíveis. Por isso nos permitimos ser levianos, apontar culpados generalizadamente, atirar primeiro e perguntar depois. Estamos sozinhos.
Não faz diferença a quem acusamos -eles não estão lá. Eles não estão nem aí. Eles vêem as ruas vazias, ninguém nos aeroportos, nos hospitais, nas escolas públicas. Para eles, que não nos enxergam, não há gente em lugar nenhum. Portanto, não se interessam pela contagem dos corpos mortos por negligência em um avião.
O noticiário me dá a entender que estamos fora do mundo. Uma questão meio Morrissey, meio existencial: o ex-vocalista dos Smiths afirmava, em refrão dos anos 80, que se sentia excluído da raça humana. Frescura: ele é inglês e jamais teve um governante chamado Collor.
Cada país tem seus problemas. Mas os nossos, os dos brasileiros, deviam ser capa de conceituada revista da comunidade científica ou render um seriado de TV como o sci-fi “The 4400″. É que desaparecemos, todos nós. Ninguém nos vê.
Gestos obscenos na TV dão a medida do respeito que eles, que não nos vêem, têm por nós. Não somos um povo, somos uma alucinação coletiva que só nós temos. Em época de eleição, fazemos aparições que eles computam e aproveitam. Depois, tornamos a sumir do mapa torto, deixamos de pertencer ao país. Somos invisíveis por omissão dos outros ou por omissão nossa? Devíamos esfregar o desrespeito na cara deles diariamente, com gana, até arrancar-lhes os olhos. Eles não nos vêem.
É o país do Deus-nos-acuda; porque ninguém mais vai fazê-lo.
Se instituíssem por aqui a Lei Seca e cortassem o fornecimento de antidepressivos e ansiolíticos, também não teríamos coragem de olhar. A seco, o Brasil não desce pela goela.
Não somos notados, passamos despercebidos como seres humanos. Vagamos bovinamente assistindo às tragédias, temendo o abatedouro, cujas formas de abater são multiplicadas pelo abandono.
Somos invisíveis, órfãos, viúvos, ex-amigos de gente que virou pó, de quem não vamos esquecer e que nunca existiram para aqueles que não são capazes de nos enxergar.

Biti, lindo o texto né? Escrevo aqui ainda com saudades do meu tio Duda, irmão da minha mãe, que morreu há dez anos, naquele primeiro acidente da TAM – que provavelmene ninguém se lembrava mais. Precisou outro avião cair, um prédio explodir, centenas morrerem, pro Brasil se lembrar que aquilo já tinha acontecido lá atrás. Pior: o luto, a revolta e a vontade de mudar vão durar apenas até a próxima piada da Bebel, se muito até a próxima medalha do Pan…
A saber: minha família ainda não foi indenizada. E faz DEZ anos.
Sou ex-sobrinha querida de gente que virou pó, de quem não vou esquecer e que nunca existiram para aqueles que não são capazes de nos enxergar…
ué… deixei um comentário megaemocionado aqui ontem… sumiu?
Poxa….adorei!!!
realmente bordado é uma arte que muitas vezes transcende!!!
depois vou te mandar umas telas bordadas que meu marido faz…
parabéns pelo blog,
joana
Biti, este é o melhor texto que lí nos ùltimos dias, me fez lembrar José Saramago no seu fantástico e assustador ensaio a cegueira.
Estamos tão encurralados…
Hoje participei da passeata CANSEI, onde lí uma faixa que dizia:
POVO CALADO É POVO MANIPULADO
A cada tragédia, a nossa força cresce e faz com que lutemos contra a inércia na qual nos encontramos.
Hoje talvez 1500 pessoas enfrentaram muito frio para acompanhar os familiares das vítimas
numa homenagem que me fez lembrar nossa querida Regina Lemos, desaparecida no vôo da Tam em 96, que também levou o tio da Maria.
Eu sei de uma coisa, não quero ser mais tão manipulada, quero boicotar.
bj da Claudia