O sonho das meninas

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21jul . 09 23:51

Hoje, a Folha de Sâo Paulo publicou uma matéria, no caderno Cotidiano, sobre pessoas que estão se passando por “olheiros” de agências de modelo, com a intenção de conseguir fotos sensuais de meninas aspirantes a esta profissão.

Esse tipo de golpe não é novo e nem incomum, só que, agora, ele acontece através da internet, incluindo ferramentas como emails falsos, conversas por MSN, e sugestão de nudez através de webcam. Alguns golpistas chegam a convidar as garotas para virem para São Paulo, como atesta a mãe de uma delas, que tinha concordado com a viagem, em nome do tal “sonho de ser modelo” da filha.

É claro que é preciso alertar as pessoas para que tomem muito cuidado com abordagens de caça-talentos, para que chequem a idoneidade das pessoas e das agências envolvidas. Mas não é só isso, é necessário atentar para esta outra  questão:  ser modelo virou a tábua de salvação, o sonho de consumo de um número enorme de adolescentes. E até de crianças.

Hoje, por coincidência, uma outra matéria jornalística falou sobre a fixação feminina em padrões de beleza e comportamento: o Profissão Repórter de Caco Barcelos, na Globo. O programa acompanhou 3 concursos:

Garota da Laje, que aconteceu em pleno Saara carioca (para quem não conhece, Saara é um bairro de comércio popular, tipo 25 de Março) e tinha como único pré-requisito… gostar de tomar sol na laje.

Mini Miss Brasil, em Santa Catarina, em que crianças a partir de 5 anos de idade competem como gente grande, com maquiagem, poses e sorrisos ensaiados (quem já viu o filme Pequena Miss Sunshine, já sabe a doideira que é) para serem coroadas por sua beleza

Concurso de Prendas, no Rio Grande do Sul, que escolhe a moça mais prendada em termos de tradições gaúchas. E neste caso, ora vejam, ela nem precisa ser bonita, mas tem que saber bordar, cantar e dançar músicas típicas. Uma donzela em pleno século 21.

O contraste entre os 3 concursos foi muito interessante e, sem dúvida, a grande sacada da matéria. Enquanto as  popozudas cariocas exibiam seus atributos sem pudor, as mães se realizavam através do sucesso das filhinhas, e a caravana de moçoilas vestidas com trajes típicos, treinava danças anacrônicas.

Os momentos mais marcantes (ou seriam aterrorizantes?), para mim, foram: a menina de 5 anos, quando questionada pela repórter se admirava de algum adulto, responde: a Gisele! Quem? A Gisele Bundchen! Sim, sem nem gaguejar no sobrenome! A cena em que uma outra garota, de 12 anos, chora depois de ter sido ameaçada com uma surra pela mãe de uma concorrente, por ter esbarrado nela. A popozuda indignada que vocifera para a câmera sua indignação por não ter ganho o prêmio: um automóvel usado, ano 2001. E  ela ainda desdenha da  ganhadora dizendo que tem carro zero!

No concurso de prendas, parece haver mais civilidade, escorrem lágrimas de decepção, mas de forma contida. Afinal, não fica bem para uma dama dos pampas sair dando escândalo em público. Uma das prendas desclassificadas, com silhueta mais roliça que as demais, se alegra pelo sucesso das amigas selecionadas como finalistas. Neste grupo, não há lugar para a rebeldia ou a inveja explícita.

Os fatos falam por si. A competição insana, a beleza como meio de ascenção social, e até a infalível coroação mostram que a fábula da Cinderela, da Gata Borralheira, continua viva no imaginário, nos livros, na televisão, e agora, é claro, nas páginas da web.

Acho até que vale a pena rever o filme da Dove que mostra a manipulação de imagem de uma modelo, aqui.

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11 comentários

  1. Mirian Barranco Herrera

    Muito bom, Biti! Acho deprimente esses concursos de beleza infantis.

  2. Liv

    Excelente post, Biti!

  3. Celso BEssa

    Pois é, ontem, vendo o profissão repórter, lembrei bem do Pequena Miss Sunshine. E já que o assunto é polêmico e você citou o vídeo da Dove sobre a transformação da modelo, cabe lembrar que o fabricante da Dove, que sugere aceitação por parte das mulheres de que a beleza não tem um padrão e de que devem sentir-se bem consigo, é o mesmo que fabrica o Axe, que tem um posicionamento bem machista e estereotipado. O quanto isto realmente influencia nesta questão?

    E claro que todo pai que ter um filhinho bonitinho, mas sempre me assustei com essa coisa de mini-adultos ou de realizar seus sonhos através de uma criança. Pior ainda quando tem algum aspecto comercial, como uma Maísa da vida. Além de você colocar uma carga de estresse e responsabilidade muito grande até para um adulto numa criança, você começa a limitar as possibilidade do que essa criança pode ser no futuro. Além de cada vez mais, deixá-la menos criança antes do tempo.

  4. Celso BEssa

    Correção:

    “Além de se colocar uma carga de estresse e responsabilidade muito grande até para um adulto numa criança, começa-se a limitar as possibilidade do que essa criança pode ser no futuro. E cada vez mais, deixa-a menos criança antes do tempo.”

  5. Lúcia Alonso

    É fácil lembrar também da expressão “mãe de miss” quando se fala sobre aquela mãe zelosa, criteriosa e implacável na arte de supervalorizar sentimentos abnegados na sua própria vida: atribuir às suas filhas e filhos seus próprios desejos frustrados muitas vezes pela própria gestação.
    É justo ainda afirmar que muitas vezes essa gana é da criança que elege seus ídolos baseada no mundo visual e auditivo que está inserida. O problema talvez seja mais macro mesmo. Talvez a visão seja a pobreza que leva as popozudas da laje a verem em seu próprio corpo um objeto passível de vantagem; também nas Catarinenses que carregam no seu DNA a herança histórica dos Europeus e sua beleza contrastante com a maioria afro descendente brasileira. Ainda podemos dizer das Gaúchas e sua cultura machista ao contrário das piadinhas infames aos nossos amigos sulistas.
    Essa gana pelo belo, que a proposito é também relativo, está bem representada no Pequena Miss Sunshine: uma menina desengonçada, meio gordita mas obstinada a ganhar o concurso.
    O problema mais uma vez está da educação (já dizia Senador Cristóvam Buarque) e na minha opinião, que me desculpem as burras, mas inteligência é fundamental.

  6. marcospenna

    A reflexão tá boa!!! Gozamos muito com o pau dos outros, debochamos do que compraremos daqui a seis meses e perdemos tempo demais monitorando e regrando a vida de quem nos cerca, para nos sentimos “confortáveis” e nos exibirmos para a sociedade.

    A síndrome do querer ser notado, e invejado-prazer mórbido- tomou conta mesmo desde as lajes da comunidade, as praias “PVA plastic stetic”, e as “santinhas adestradas-coitadas” do sul pela cultura mão de ferro (Por isso tem tanto grito punk por lá!)…solução estética=querer ter uma capa invisível…ou beber os conhaques e não perceber TANTO este mundo que nos cobra tanto!!! BOA relação dos fatos Miss Biti!!

  7. Jessica

    Eu assisti o programa e tenho que admitir que dei boas risadas. Não sou de acordo com disputas baseadas em beleza como atributo para vitória. Talvez eu pareça muito feminista ao dizer isso mais,jamais serei de acordo com concursos que expõe a mulher de forma obsoleta, a mostrando como um objeto a ser comprado ou como uma das mulheres da matéria falou “ficar lá que nem frango de padaria”. Achei uma maldade inserir meninas tão pequenas nisso, sendo que em vários momentos se mostrou claramente que a vontade era quase unicamente das mães que das filhas.

  8. Marcelo S.

    Caso sério com um texto tão gostoso de ler que eu acabei dando risada. A maldade e a competição me assustam tanto que eu acabo caricaturando essas situações (como os concursos citados no texto) para esquecer que essas mazelas fazem parte do humano. Eu li a matéria da folha, mas não vi o programa da globo, só a chamada.

  9. Biti Averbach

    É, Marcelo S., eu entendo sua reação. Rir é uma maneira de tornar certas coisas menos desagradáveis. Como diz o ditado: “seria cômico se não fosse trágico”.
    abs, :)

  10. Marti

    Não assisti o programa, mas só de ler sobre concursos de beleza mirim já me dá dor no coração. Acho um absurdo tão grande, um abuso… Morro de pena dessas menininhas e de muitas atrizes, cantoras e modelos infantis.

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